sábado, 11 de setembro de 2010

A Metamorfose do espírito


O espírito amadurecido percorre o deserto com o peso do seu estar no mundo. A perfeita representação do camelo – ruminante e decadente. Carregado de vivências e sem anseios de mudanças, o espírito permanece submisso à sua representação na sociedade. Um ser cansado e solitário num caminho desértico. Resignação e obediência.
Tu deves...
A existência do camelo possibilita a transformação em leão. O impulso e a coragem, expressos no querer pessoal em confronto com o dever coletivo, são características fundamentais para o novo espírito. Ser livre para apropriar-se do próprio deserto. A ferocidade do leão rasga o existente e com ímpeto rompe com os vínculos, mas não tem o poder da criação e se limita aos conhecidos desertos cotidianos.
Eu quero...
O espírito seria abatido pelo próprio desejo caso não se transformasse em criança. Eis a terceira metamorfose. O leão, após se libertar e apropriar da vida, torna-se uma criança e, com a inocência e o esquecimento, assume o jogo da recriação. Completo o ciclo de metamorfoses, o espírito livre é “uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação”.
Eu sou...
Apóio o livro na cabeceira enquanto aterrizo na realidade repleta de obrigações e noticiários. Novas metáforas brilham como perspectivas renovadas de céu sobre o deserto. Ainda não iniciei as metamorfoses necessárias a fim de compreender o eterno retorno e a necessidade de recomeçar com criatividade. Busco-me ainda leão...



Friedrich Nietzche

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